A novela Quem Ama Cuida, exibida pela TV Globo, apresentou uma situação que, embora seja ficcional, se aproxima da realidade enfrentada por muitas vítimas de golpes afetivos.
Na trama, Carmita, personagem interpretada por Deborah Evelyn, envolve-se com Édson, vivido por Vandré Silveira. Apaixonada e acreditando estar ajudando o parceiro, ela aceita fazer um empréstimo bancário em seu próprio nome. O desaparecimento dele faz surgir a suspeita de que o relacionamento teria sido usado para obter vantagem financeira.
A situação serve de alerta: golpes sentimentais nem sempre começam com um pedido direto de dinheiro. Muitas vezes, o golpista constrói confiança, cria intimidade, apresenta uma emergência e faz a vítima acreditar que ajudá-lo é uma demonstração de amor.
O que é o golpe do amor?
O chamado golpe do amor, também conhecido como estelionato sentimental, ocorre quando alguém utiliza uma relação afetiva, verdadeira ou simulada, para enganar a vítima e obter dinheiro, bens, empréstimos ou outras vantagens.
Nem todo relacionamento que termina depois de uma ajuda financeira constitui crime. É necessário analisar se houve fraude, intenção de enganar e obtenção de vantagem ilícita em prejuízo da vítima. O artigo 171 do Código Penal trata do estelionato, caracterizado pela obtenção de vantagem ilícita mediante artifício, ardil ou outro meio fraudulento.
Cada caso precisa ser avaliado individualmente. Conversas, promessas, comprovantes, transferências e a conduta adotada antes e depois do recebimento do dinheiro podem ser fundamentais para esclarecer o que aconteceu.
Por que o empréstimo em nome da vítima aumenta o risco?
Quando a própria vítima contrata um empréstimo e entrega o dinheiro ao parceiro, a dívida fica formalmente vinculada ao seu nome. A descoberta do golpe não provoca, por si só, o cancelamento automático do contrato bancário.
A responsabilidade pela dívida dependerá das circunstâncias da contratação, da existência de fraude, das medidas de segurança adotadas pela instituição financeira e das provas disponíveis. A vítima pode enfrentar simultaneamente a perda do dinheiro e a cobrança das parcelas do empréstimo.
“Se você me ama, faça isso por mim”
Golpistas podem explorar amor, compaixão, culpa e medo do abandono. A ajuda financeira passa a ser apresentada como uma prova de confiança. Quando o afeto é usado para pressionar alguém a assumir dívidas ou entregar patrimônio, é importante interromper a negociação e buscar uma avaliação externa.
O que fazer depois de descobrir o golpe?
- Guardar mensagens, áudios, e-mails, fotografias e perfis utilizados.
- Salvar comprovantes de transferências e documentos do empréstimo.
- Registrar datas, valores, promessas e justificativas apresentadas.
- Comunicar imediatamente o banco e guardar os protocolos.
- Registrar boletim de ocorrência.
- Evitar novos pagamentos para supostamente recuperar o dinheiro.
- Procurar orientação jurídica para avaliar as medidas cabíveis.
O Banco Central orienta que a vítima de golpe entre em contato imediatamente com sua instituição financeira. A rapidez pode ser relevante para impedir novas movimentações e registrar formalmente a ocorrência.
Vergonha não protege a vítima — informação, sim
Muitas vítimas demoram para procurar ajuda porque sentem vergonha de terem acreditado no relacionamento. Ser enganado não significa falta de inteligência. Golpes afetivos exploram confiança, vulnerabilidades emocionais e expectativas legítimas de construir uma relação.
Amor não deve exigir segredo, pressão ou endividamento.

Conheça o livro Amor Falso
A obra aborda mecanismos de manipulação, sinais de alerta e caminhos para prevenção e proteção das vítimas de estelionato sentimental.

Michelle de Barros Luna
Advogada desde 2005, OAB/SP 235.626, especialista em Direito Imobiliário, escritora, palestrante e ex-presidente da Comissão de Direitos Digitais e Estratégias Tecnológicas da OAB São Miguel Paulista.
Fontes
Este artigo possui caráter exclusivamente informativo e não substitui a análise jurídica individualizada.

